O Direito de Recomeçar
A vida é feita de escolhas que, não raras vezes, são marcadas por enganos e insatisfações, realidade motivam sempre uma escolha de recomeço. Tais escolhas, no campo dos relacionamentos, têm suas repercussões das mais diversas formas, mas, neste momento, partilho aquela que tira do outro o direito de recomeçar.
Ao olhar para a realidade social e, sobretudo, pessoal, somos convidados a tomar posse do que chamamos de pessimismo histórico, conceito pontuado por Walter Benjamim e trabalhado de maneira acertada por Márcia Tiburi (2007), tendo a ver com o olhar para o que é péssimo sem tornar-se cativo dele, não sendo um mero olhar de insatisfação geral, como comumente costumamos significar. Este tomar posse de realidades verdadeiras, ainda que não pertencentes ao nosso ideal fantasioso e prazeroso de relacionamento, faz-nos mais humanos, visto que a humanidade abarca o aceite da historicidade.
Transportando tais esclarecimentos para a dinâmica dos relacionamentos afetivos, percebemos que após uma experiência de frustração e luto, temos o ímpeto de fazer escolhas que aprisionam a outra pessoa em nossas lágrimas e dores, atribuindo-lhes a culpa por esta condição, ainda que a outra pessoa já tenha feito uma escolha que não inclua a nossa presença. Neste momento de aprisionamento, ainda que pela carência de diversas realidades, acabamos por nos relacionar com o outro como um EU-Isso (Martin Buber), ou seja, o outro é uma coisa, ausente e sentimentos e história, impedido de realizar escolhas para unicamente compor minha cristaleira hedonistíca.
Se acompanharmos o discurso pedagógico atual, veremos que Jean Piaget está muito presente na educação, principalmente com o que apresenta como “erro construtivo”, que diz respeito ao aprender com o erro, com os processos e amadurecimentos que só o erro - termo não carregado de juízo moral – pode oferecer. Da mesma maneira ocorre nos relacionamentos (e porque não dizer, também, na construção da subjetividade), onde o erro, entendido como o que atrapalha, de certa maneira, aquela liberdade subjetiva buscada pelo sujeito, também proporciona uma experiência da necessidade de ser mais, entretanto, somente aliada à uma consciência de construção subjetiva, ou seja, da necessidade de crescer sem a dependência emocional de um outro.
Quando este reconhecimento acontece, o EU-Isso pode torna-se EU-Tu, ou seja, reconhecendo quem sou - minhas dores, dramas, lutos e desafios – tenho a possibilidade de compreender que, a sublimação (Jacques Lacan), ou seja, o significado que me fará ir adiante, estará mais na dimensão do encontro EU-Tu, o encontro de duas pessoas que se aceitam e se promovem no direito de escolherem e crescerem livremente, que na falsa satisfação do Eu-Isso.
Desta maneira, deixar o outro escolher seu recomeço, o permite chegar mais afundo da condição de ser pessoa, visto que o recomeço é o novo que puxa a antiga condição a um outro patamar, e traz outras possibilidades de vir-a-ser (Vygotsky, ZDP,1992). Impedir ou atrapalhar este recomeço, é o mesmo que roubar do outro sua liberdade de viver.
Ora sofro estas realidades, ora as implico ao outro.
Independente da condição que eu estiver é preciso saber: o meu não-crescer, ou minha imaturidade, não me autorizam a impedir o crescimento e a maturidade do outro, mesmo que isso implique em deixar o outro partir.
Eu e você temos o direito de recomeçar!
Odirlei Roque de Faria
odirleifaria.blogspot.com
